|
PAULO SERGIO BRETONES
Professor de Astronomia do curso de Geografia e
do Observatório do Morro Azul do ISCA Faculdades de Limeira
Na noite de 8 para 9 de novembro, observadores de várias partes do mundo
terão a oportunidade de observar um eclipse total da Lua.
O eclipse será visível no Brasil, leste da América do Norte, América
Central e América do Sul (exceto a extremidade sul), Antártica, Europa,
Ásia ocidental, quase toda a África (exceto uma estreita faixa da costa
oriental), oceano Atlântico, oeste do Oceano Índico e leste do Pacífico.
Denomina-se eclipse ao obscurecimento parcial ou total de um corpo celeste
em virtude da interposição de um outro. A palavra eclipse vem do grego
ekleipsis, que significa abandono, desmaio, desaparecimento.
É uma das raras chances de observar-se um espetáculo tão belo da
natureza. Podem ocorrer, anualmente, no mínimo 2 eclipses sendo os 2
solares e no máximo 7, sendo pelo menos 2 lunares. Podem ocorrer 5
solares e 2 lunares ou 4 solares e 3 lunares. Embora os eclipses solares
ocorram em maior número, vemos com mais freqüência os lunares, pelo
fato de os últimos serem observados em áreas consideravelmente
superiores à metade da Terra, enquanto que os solares só podem ser
vistos em uma área muito limitada com 260 Km de largura e de 4800 a 6400
Km de extensão.
A cada 18 anos 11 dias e 8 horas os eclipses se reproduzem na mesma seqüência,
é o chamado período de Saros, já conhecido pelos caldeus. Mas só
depois de 3 Saros será possível a um observador contemplar, no mesmo
lugar, o mesmo eclipse em circunstâncias praticamente idênticas.
Os eclipses solares ocorrem quando a Lua interpõe-se entre o Sol e a
Terra, isto é, quando está em fase de Lua nova.
Os eclipses lunares ocorrem quando a Lua penetra no cone de sombra da
Terra, o que só pode acontecer na fase de Lua cheia pelo seguinte:
A Terra gira ao redor do Sol num plano. Por exemplo, supondo que o Sol
esteja no centro da face superior de uma mesa, a Terra se move em torno do
Sol no nível desta superfície. Ao mesmo tempo a Lua gira em torno da
Terra, mas o plano de órbita lunar é inclinado um pouco mais de 5º em
relação à face da mesa.
Embora a Terra projete sempre a sua sombra não a percebemos porque
geralmente a Lua passa acima ou abaixo da sombra.
Assim, quando a Lua cruza o plano da órbita da Terra, ou seja, passa por
um nodo, e além disso o Sol, a Lua e a Terra ficam alinhados, ocorre um
eclipse lunar.

Planos das órbitas da Terra e da Lua
A sombra da Terra projetada no espaço se estende em forma cônica por
cerca de 1.383.700 Km. À distância de aproximadamente 384.000 Km, onde
está a Lua, o diâmetro da sombra tem cerca de 9.170 Km.
Além de uma parte escura, chamada umbra ou apenas sombra, a sombra da
Terra tem uma parte cinzenta denominada penumbra. Mas é a sombra que dá
o efeito de beleza ao fenômeno, pois a penumbra na maioria das vezes é
imperceptível.

Corte Longitudinal do fenômeno
Na noite de 8 para 9 de novembro, no horário de verão, às 21h32min do
dia 8, a Lua cheia começará a "mergulhar" na sombra da Terra,
assim, uma linha divisória surge como um entalhe no bordo lunar e
penetrando cada vez mais até que às 23h06min a Lua estará toda coberta
pela sombra de nosso planeta. Isso vai até às 23h30min quando começará
a sair da sombra até que às 01h04min sairá por completo e estará
novamente toda iluminada pelo Sol. Desta forma, o meio do eclipse ocorrerá
às 23h18min. Para outras localidades, fora do horário de verão, veja a
tabela no final do artigo.

Corte Transversal do fenômeno
Os eclipses lunares já foram mais importantes para a pesquisa astronômica.
Eles forneceram a primeira prova de que a Terra é redonda, foram
utilizados no estudo da alta atmosfera do nosso planeta, no estudo da rotação
da Terra, no tamanho e distância do nosso satélite além de variações
em seu movimento.
Além disso, os eclipses podem contribuir na determinação de datas que
se deram em tempos remotos. Os astrônomos podem fazer o levantamento com
grande precisão de quando ocorreram estas datas.
Sabe-se, por exemplo, que Josephus, antigo historiador, escreveu que houve
um eclipse lunar na noite que precedeu a morte do rei Herodes. Esse
eclipse ajudou os historiadores a determinar a data de sua morte e assim
conhecer o começo da Era Cristã.
Quando a Lua estiver toda imersa na sombra poderá tomar uma cor de cobre,
isto é, avermelhada, pelo seguinte: A luz do Sol atinge a Terra e passa
pela atmosfera. Os componentes da luz branca, que produzem as cores
vermelha e laranja, espalham-se pelo ar cobrindo o céu com as cores do
Sol no alvorecer e no crepúsculo. A refração transforma essas cores em
sombra, por isso a Lua pode ficar avermelhada.

Aspectos da Lua durante um eclipse.

Aspecto da Lua, no máximo do eclipse.
Outro exemplo histórico relacionado à coloração da Lua durante um
eclipse, está no relato de Pôncio Pilatos, no Novo Testamento. Segundo
ele, a “Lua apareceu como da cor do sangue” na crucificação de Jesus
Cristo. Atualmente o avermelhamento da Lua é devido à poluição da
atmosfera. Na época, a cor de sangue referida por Pilatos, o que
contaminava a atmosfera, e pode acontecer até hoje, é a emissão de
gases e poeiras pela atividade vulcânica. Para os astrônomos ingleses
Colin J. Humphreys e W.G. Waddington, da Universidade de Oxford, em artigo
publicado na revista Nature, no eclipse da Lua no dia da crucificação, a
Lua surgiu no horizonte de Jerusalém com cerca de 20% do seu disco
encoberto. Ela poderia estar rosada pela poluição vulcânica.
O aspecto da Lua durante um eclipse total pode ser relacionado com a sua
trajetória pela umbra, água, nuvens e partículas sólidas da atmosfera.
Além disso, segundo estudos do astrônomo francês Danjon e do tcheco
Link, há uma relação entre a luminosidade da lua eclipsada e a
atividade solar. Dessa forma, nos dois anos que se seguem a um mínimo de
atividade solar, a Lua eclipsada é mais escura e menos colorida. Como o
Sol passou em 2000 por um pico no seu ciclo de atividade, poderemos
estudar, três anos depois, qual será seu aspecto.
Também há uma história sobre o eclipse total do Lua observado em 1504.
O navegador Cristóvão Colombo com seu exército morreria de fome porque
não obtinha alimentos e água junto aos indígenas para sua viagem de
volta. Soube da ocorrência do eclipse dias antes e na noite do fenômeno
disse aos caraíbas que iria tirar a luz da Lua se não fornecessem o que
necessitava. Assim que se iniciou o eclipse os indígenas ficaram
apavorados e atenderam ao solicitado pelo grande navegador.

Eclipse lunar de 1504 observado por Colombo na Jamaica (New York Public
Library)
Neste ano temos ao todo 4 eclipses sendo 2 eclipses totais da Lua e 2
eclipses do Sol: um total e outro anular. Destes, apenas os eclipses
lunares são visíveis no Brasil. Um deles já ocorreu em maio, o próximo,
como mostra a carta geral do eclipse, também será visível no Brasil.

Carta geral do eclipse
As observações do eclipse total da Lua podem ser realizadas com binóculos,
lunetas e telescópios de fraco aumento.
Para fotografar o eclipse, são indicados filme de sensibilidade média ou
rápida (400 ASA) e aconselha-se um tempo de exposição instantâneo
(1/25 de segundo) e de alguns segundos durante a fase da totalidade.
Para obter na mesma foto a seqüência do eclipse, deve-se fazer um ensaio
na véspera para procurar o melhor local. É importante conhecer a trajetória
aparente da Lua e utilizar mais de uma abertura e velocidade de disparo
para garantir fotos de boa qualidade. Com a câmara fixa, apoiada em tripé,
deve-se disparar manualmente (velocidade B) em intervalos de três, cinco
minutos ou mais, sem avançar o filme.
Usando-se teleobjetivas, como o campo é limitado, é possível obter
imagens maiores da Lua e, portanto, nem sempre é possível fotografar, no
mesmo quadro, toda a seqüência.
Vale a pena ficar acordado e reunir a turma para observar esse raro fenômeno.
Enquanto que o eclipse reúne no céu o Sol e a Lua, as pessoas se reúnem
aqui em baixo para observá-los e ver esse belo espetáculo da natureza.
Mas, este fenômeno é mais bonito de ser visto a olho nu. É um lindo
espetáculo cujo único esforço necessário, se o céu não estiver
nublado, é o de levantar a cabeça e deixar-se maravilhar pela sua
beleza. E como ocorre na noite de sábado para domingo, pode ser um bom
programa para fazer, de preferência, acompanhado. Melhor ainda ao som do
bolero romântico Eclipse de Luna ou outra música qualquer.
O Observatório do Morro Azul estará aberto, com entrada franca, no sábado,
dia 8 a partir das 20h30. Será realizada uma palestra para explicação
do eclipse e observações com o uso dos telescópios. O Observatório está
aberto a escolas e grupos em outras datas. As visitas devem ser agendadas
pelo telefone 3404-4729.
Tabela de horários do eclipse fora do horário de verão
| Fenômeno |
Horário
- Tempo Universal |
Horário
- fora do Horário de Verão * |
| Entrada
na sombra |
Dia
8 – 23h32min |
Dia
8 – 20h32min |
| Início
do eclipse total |
Dia
9 – 01h06min |
Dia
8 – 22h06min |
| Meio
do eclipse |
Dia
9 – 01h18min |
Dia
8 – 22h18min |
| Fim
do eclipse total |
Dia
9 – 01h30min |
Dia
8 – 22h30min |
| Saída
da sombra |
Dia
9 – 03h04min |
Dia
9 – 00h04min |
(*) No Brasil, para
localidades nas regiões Norte e Nordeste e o estado do Mato Grosso.
Bibliografia:
BOCZKO, Roberto. Conceitos de Astronomia. São Paulo: Edgard Blücher
Ltda, 1984. 429p.
BRETONES, P.S. Os Segredos do Sistema Solar. São Paulo: Atual Editora,
1993. 44p.
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Anuário de Astronomia 2003. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 378p.
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Eclipses, da superstição à previsão
matemática. São Leopoldo, Ed. Unisinos, 1993. 239p.
OBSERVATÓRIO NACIONAL. Anuário do Observatório Nacional. Rio de
Janeiro, 2002.
http://sunearth.gsfc.nasa.gov/eclipse/LEplot/LEplot2001/LE2003Nov09T.gif
Dicas para fotografar o eclipse:
http://www.mreclipse.com/LEphoto/LEphoto.html
http://www.kappacrucis.com.uy/eclipse_de_luna.htm
|